ARTIGO: Quando a violência contra as mulheres se torna o maior medo do país
Coordenadora-Geral do Núcleo de Enfrentamento a Violências e Apoio às Vítimas (NEAVIT) do Ministério Público de Santa Catarina, Promotora de Justiça Chimelly Luise de Resenes Marcon.
Uma pesquisa recente do Datafolha revelou um dado que merece atenção: para 60% da população brasileira, a violência contra as mulheres é hoje o crime mais grave do país. Na percepção coletiva, ela aparece à frente de problemas historicamente associados à insegurança pública, como tráfico de drogas, assaltos à mão armada e roubos.
O resultado chama a atenção porque traduz, em números, algo que os indicadores de violência vêm demonstrando há anos. A agressão contra mulheres deixou de ser percebida como uma questão privada, restrita ao ambiente doméstico, para ser reconhecida como um problema social de grandes proporções. Trata-se de uma mudança importante. Afinal, durante muito tempo, a violência de gênero foi invisibilizada, minimizada ou tratada como um conflito íntimo, sem relevância para o debate público.
Mas a pesquisa também revela algo mais profundo. Ela expressa um sentimento de alerta que muitas mulheres conhecem desde sempre. Antes de ser estatística, a violência é experiência cotidiana. Está presente no medo de caminhar sozinha à noite, na vigilância constante sobre os próprios deslocamentos, no receio diante do fim de um relacionamento abusivo, nas ameaças, perseguições e constrangimentos que tantas mulheres enfrentam ao longo da vida.
Sob essa perspectiva, os dados não anunciam uma novidade. Apenas tornam visível uma realidade que há décadas atravessa a existência feminina. O que parece novo é o fato de que esse temor começa a ser compartilhado e reconhecido de forma mais ampla pela sociedade.
Há, contudo, uma contradição que não pode ser ignorada.
A mesma sociedade que identifica a violência contra as mulheres como o problema criminal mais grave do país continua reproduzindo práticas, discursos e estruturas que a alimentam. Ainda convivemos com a objetificação dos corpos femininos, com a naturalização do controle sobre a vida das mulheres, com a culpabilização das vítimas e com a tolerância social a diferentes formas de violência que antecedem as agressões mais graves.
Em outras palavras, parte significativa daqueles que se dizem preocupados com a violência contra as mulheres também participa, consciente ou inconscientemente, da cultura que a sustenta. Não raramente, a indignação surge diante do feminicídio consumado, mas desaparece quando é preciso enfrentar o machismo, o sexismo e a misoginia que tornam essas mortes possíveis.
Talvez por isso a pesquisa funcione como um espelho. Ela reflete não apenas uma preocupação legítima, mas também a dimensão de um problema que já não pode ser negado. O desafio agora é transformar percepção em compromisso. Porque reconhecer a gravidade da violência contra as mulheres é apenas o primeiro passo. O que realmente importa é a disposição coletiva para enfrentar as suas causas mais profundas e construir uma sociedade em que viver sendo mulher deixe de representar um fator de risco.
Artigo publicado no Jornal Notícias do Dia deste sábado (06/06)
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