ARTIGO: O Direito ao Futuro Começa no Sumidouro
Por Raíza Alves Rezende, Promotora de Justiça
Vivemos tempos desafiadores em que somos espectadores de variadas tragédias. Na rotina, é comum nos sensibilizarmos com a dor do outro apenas quando esse outro tem um rosto, um nome, uma história para nos aproximar. No entanto, os riscos que ameaçam o meio ambiente exigem, com máxima urgência, um ajuste profundo de perspectiva. Precisamos aprender a nos sensibilizar também com o que é coletivo e não tem rosto ou voz, mas cujas decisões e impactos afetam a vida de todos. Na Semana do Meio Ambiente, o Ministério Público de Santa Catarina convida a sociedade a olhar para a região do Sumidouro, no litoral norte, como o exemplo prático dessa urgência.
O Sumidouro e seu entorno não são conceitos abstratos; são um ecossistema vital. Funcionam como berçário da vida marinha, guardam remanescentes essenciais de Mata Atlântica, além de mangue e restinga, e protegem nossa costa. A vocação daquela área está na conservação, na pesca artesanal e no turismo sustentável, com apoio da sociedade.
Ignorar essa identidade em nome de projetos de grande escala, como um porto, a pretexto de um desenvolvimento insustentável, é um preço alto demais. A supressão de mais de 100 hectares de vegetação nativa, o risco de extinção da fauna, a proibição da pesca que sustenta e alimenta a mesa de milhares de famílias, o impacto severo na mobilidade urbana da BR-280 e o comprometimento da biodiversidade da Baía da Babitonga não afetarão somente São Francisco do Sul, mas todo o estado. As graves emergências climáticas que Santa Catarina enfrenta mostram que a conta da degradação sempre chega para todos.
A proteção do Sumidouro demonstra que a população precisa tomar conhecimento, ocupar os espaços de debate e fazer ecoar sua voz, pois as decisões sobre sua cidade e região são de seu interesse direto. O planejamento urbano e os licenciamentos ambientais exigem rigor técnico e, sobretudo, respeito à vontade e à qualidade de vida dos cidadãos.
Cuidar do Sumidouro é também cuidar do nosso futuro. Preservar o meio ambiente hoje é a única garantia de que as próximas gerações herdarão um estado viável, seguro e próspero. A responsabilidade é coletiva, e o momento de agir e se envolver é agora.
Artigo publicado no Jornal ND, edição de sábado (6/6).
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