Júri em Chapecó condena a 34 anos de prisão homem que matou a tiros jovem atleta do futsal
A sentença acolheu as duas circunstâncias qualificadoras apresentadas pelo Ministério Público para majorar a pena: motivação fútil e recurso que dificultou a defesa.
Uma menina alegre, filha amorosa, atleta promissora, alguém que fazia amizade fácil por onde passava. Assim era descrita por amigos e familiares a jovem de 21 anos que foi morta a tiros na principal avenida de Chapecó em junho passado. Após denúncia do Ministério Público de Santa Catarina (MPSC), nesta quinta-feira (18/6) o responsável pelo crime foi submetido a júri popular no Fórum da Comarca de Chapecó. Após doze horas de julgamento, ele foi condenado a 34 anos e oito meses de reclusão, em regime inicial fechado.
O Conselho de Sentença, composto por quatro jurados homens e três mulheres, validou a sustentação do Ministério Público e considerou que o réu praticou homicídio duplamente qualificado por motivação fútil e recurso que impediu a defesa da vítima. Por esse crime, a pena aplicada foi de 24 anos de reclusão. O autor também foi condenado por outros dois crimes. Ele recebeu pena de oito anos de prisão por tentativa de homicídio duplamente qualificada praticada ao efetuar um disparo contra um amigo da vítima. O crime de porte ilegal de arma de fogo resultou em dois anos e oito meses de reclusão, além do pagamento de 15 dias-multa. Na mesma sessão, pelos três crimes, outro homem foi absolvido pelos jurados.
No Tribunal do Júri, o Ministério Público foi representado pelo Promotor de Justiça Moacir José Dal Magro, titular da 4ª Promotoria de Justiça de Chapecó. Ele expôs provas técnicas de materialidade e autoria, reconstituindo para os jurados os acontecimentos da noite do crime e destacando os antecedentes do réu, que já tinha condenação anterior por porte ilegal de arma. O representante do Ministério Público também refutou a tese de que o réu teria agido em legítima defesa. “Estamos aqui para trazer dignidade à memória da vítima e para punir com justiça o autor do crime”, declarou.
Familiares, amigos e vizinhos da vítima se deslocaram de Concórdia até Chapecó para acompanhar o julgamento. A mãe, a irmã e a vizinha da vítima foram ouvidas como informantes. Natural e moradora de Concórdia, a vítima tinha apenas 21 anos. Desde os 11 anos era atleta de futsal. Até os 18 anos, ela representou a Associação Concordiense de Futsal Feminino. Em 6 de junho de 2025, ela viajou de Concórdia para Chapecó para assistir a um show musical com amigos e comemorar a conquista de um campeonato. Depois do show, já na madrugada do dia 7, eles foram até a Avenida Getúlio Vargas para comer um lanche.
De acordo com o Ministério Público, o réu transitava pela mesma avenida acompanhado de um amigo, que dirigia o veículo dele. Ao avistar uma menina sentada na calçada ao lado de um veículo estacionado, eles decidiram parar no local para abordá-la. A jovem era amiga da vítima, que naquele momento estava dentro do carro, no banco de trás, com outra amiga delas. Após assediar as jovens, que não corresponderam às cantadas do réu e pediram para ele se afastar, o autor se exaltou. Ambos, réu e vítima, desceram dos carros em que estavam. Ela, movida pela tentativa de afastar o assediador de si e de suas amigas; ele, com a motivação de atirar para matar, conforme entendimento selado no Tribunal do Júri.
O primeiro tiro atingiu a vítima na clavícula. Ao tentar escapar, ela foi atingida por outro tiro, dessa vez nas costas. Mesmo ferida, a jovem conseguiu correr até o outro lado da rua, em busca de ajuda. Um amigo delas, que saiu da lanchonete e se aproximou ao notar a confusão, também foi alvo de um tiro. O autor entrou novamente no banco de carona do carro e fugiu do local sem prestar socorro. A vítima morreu no local. Os dois homens julgados no Tribunal do Júri desta quinta-feira (18/6) foram presos em flagrante, na manhã seguinte ao assassinato, trafegando no mesmo veículo envolvido no crime. A arma utilizada foi encontrada na posse de outro homem, que faleceu após troca de tiros com a polícia em um posto de gasolina de Chapecó, em 28 de junho.
Atuaram na sessão o Promotor de Justiça Moacir José Dal Magro, duas advogadas de acusação representando a família da vítima e três advogados de defesa dos réus. Foram ouvidas três testemunhas no plenário do júri e mais três foram exibidos em vídeo. Na tarde da tarde, ocorreram os debates entre a Promotoria de Justiça e a defesa dos réus.
O réu, que já estava preso preventivamente, começará a cumprir a pena de imediato e não poderá recorrer em liberdade.
Familiares e amigos da vítima acompanharam o júri
Conforme relato de familiares e amigos, ouvidos como informantes no plenário do júri, a vítima era uma pessoa muito querida na vizinhança e no meio esportivo. “Eu tinha orgulho dela como atleta, como pessoa. Ela tinha muitos amigos, se dava bem com todo mundo. Não consigo me conformar que isso tenha acontecido ela sendo uma pessoa, uma atleta tão querida. Transmitia uma tranquilidade, uma paz. Não tem explicação”, disse a mãe, muito emocionada.
Uma vizinha da vítima contou aos jurados como a morte impactou o bairro em que viviam. “Foram dias de silêncio, parecia que estávamos na pandemia de novo. Sempre tinha alguém chorando por ela no bar, na rua. Ainda é muito triste. Sinto falta de ouvir ela me chamando na cerca, me convidando para assistir os jogos”, disse a vizinha.
Exímia jogadora de futsal, a vítima foi descoberta por um olheiro quando tinha apenas oito anos de idade. “Ainda pequena, ela já tinha um talento muito grande. Conquistou todos os títulos possíveis no nosso estado e chegou a ser vice-campeã brasileira. Tinha uma legião de amigos em todo o estado, sempre conquistou o respeito das adversárias. Uma menina promissora, que poderia ter um futuro nas quadras em grandes equipes. Agora, queremos recordar a sua alegria e as suas conquistas”, disse o seu treinador em vídeo um exibido no plenário.
“Aquele 7 de junho acabou com a nossa vida. Ela deixou saudades no coração de cada um que conheceu”, sintetizou a irmã da vítima.
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