Seminário 100 Anos da Guerra do Contestado
O General Aureliano Pinto de Moura abriu o evento com um resgate histórico das operações militares do exército na Guerra. O seminário, promovido pelo MPSC em parceria com o IHGSC, segue até sexta.
Mesa composta para a solenidade de abertura |
General Aureliano Pinto de Moura |
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A coordenadora do Memorial do Ministério Público e organizadora do evento, Promotora de Justiça Helen Crystine Corrêa Sanches, explicou que a escolha do tema não foi em vão. "Trata-se de um evento histórico da mais alta relevância para a região sul, com extraordinários desdobramentos políticos, econômicos e sociais ao longo do último século. Nesse sentido é que o seminário afigura-se como um espaço privilegiado para promover a reflexão do fenômeno do Contestado nas suas diversas perspectivas e contextos", concluiu.
O objetivo do seminário é discutir temas ligados à Guerra do Contestado, como a ocupação da terra no local do conflito, empreendimentos econômicos na região, religiosidade popular, Exército Brasileiro, memória e patrimônio do Contestado, entre outros assuntos, além da apresentação de filmes históricos. Os resultados da etapa de Santa Catarina serão apresentados no Seminário Nacional, que acontece em setembro, na cidade do Rio de Janeiro. A Guerra do Contestado ocorreu em Santa Catarina entre os anos de 1912 e 1916 e foi uma das maiores revoltas populares da história brasileira.
Também como parte da programação do Seminário, o MPSC lança hoje o livro "Memórias do General José Vieira da Rosa - Participação na Guerra do Contestado". A publicação é o primeiro volume da série Memória Viva de Santa Catarina e abrange cerca de cem páginas dos relatos do General Rosinha, como era chamado pelos amigos, sobre temas diversos, com destaque para suas vivências na Revolução Federalista de 1893 a 1895 e na Guerra do Contestado, entre 1912 e 1916. O texto, até então inédito, foi atualizado ortograficamente e traz uma nota biográfica e introdução histórica. ( Saiba mais aqui! )
A Conferência de Abertura do evento - que seria proferida por José Murilo de Carvalho, cientista político e um dos mais importantes historiadores brasileiros - foi substituída pela palestra do General Aureliano Pinto de Moura, especialista em história militar no Brasil, anteriormente programada para a manhã de sexta-feira, já que o conferencista foi impossibilitado de chegar à Florianópolis em função do mau tempo que fechou o Aeroporto Hercílio Luz para pousos e decolagens.
Em sua palestra, o General Aureliano Pinto de Moura fez um resgate histórico das operações militares do exército na Guerra do Contestado. Leia abaixo entrevista com o palestrante.
MPSC - Como era o exército brasileiro na época do Contestado?
General Aureliano - O Exército, em 1912, tinha um efetivo de 24.877 homens para guarnecer todo o território nacional. A elite política, com isso, defendia - e ainda defende - a existência de um núcleo base para atender uma situação crítica durante uma emergência, pois mobilização não se improvisa. Os fuzis Mauser, de 1891, remanescentes de Canudos, estavam desgastados pelo uso. Alguns eram de 1908. Contavam com 13 Brigadas Estratégicas (10 de Infantaria, 2 de Cavalaria e 1 Mista). Sua experiência de guerra era a de Canudos, em 1897.
MPSC - Qual foi a tática militar utilizada contra os rebeldes?
General Aureliano - A tática militar utilizada pelo Exército foi a Operação de Cerco. Mas antes de desencadear a operação, o General Setembrino (Ministro da Guerra, entre 1922 e 1926, comandou a repressão ao levante de Juazeiro - Ceará, 1914 - e a do Contestado) ofereceu terras e ajuda àqueles que se entregassem ao Exército. A oferta não teve repercussão, pois os jagunços estavam em período de ataques, incêndios, saques, execuções, etc.
MPSC - Como o senhor reage às críticas que houve ao massacre da população rebelada das forças combinadas?
General Aureliano - É tema polêmico. O que se entende por massacre? Atacar um reduto de jagunços, armados de winchesters, adquiridas de comerciantes de Florianópolis, Curitiba e São Francisco? Muitos dos quais haviam incendiado Curitibanos, estações da ferrovia, saqueado e incendiado fazendas. Aconteceram ataques a redutos - valhacouto de bandidos. Causando mortes de ambos os lados. Com os jagunços assassinando friamente os nossos feridos. O Exército lá estava por ordem do Poder Civil. Para dar segurança à população. Nenhum militar estava no Contestado por livre vontade. Por que não se pergunta sobre os sertanejos escorraçados de suas terras para favorecer os apadrinhados dos "coronéis" e políticos? Por que os governadores não resolveram o problema? Por que o planalto estava abandonado pelos poderes públicos?
MPSC - Quais eram os problemas de logística da época?
General Aureliano - De 1912 a 1940, a logística era empírica com as expedições, tendo dificuldades de suprimento. Com a chegada do Exército, o General Setembrino organizou a logística que, embora não tenha sido o desejável, atendeu as necessidades da tropa.
MPSC - Como era o treinamento dos soldados e oficiais?
General Aureliano - Os oficiais eram formados na Escola Militar do Realengo. No início do século XX, vários foram estagiar no Exército Alemão para a Guerra. Alguns eram veteranos de Canudos. Os soldados, ao serem incorporados, faziam um período básico e posteriormente eram preparados para a guerra regular. Eram recrutas. Não houve mobilização de soldados já treinados.
MPSC - Por que foi tão difícil reprimir caboclos mal armados e rebeldes?
General Aureliano - Não foi difícil. Nem os caboclos estavam tão mal armados assim. Temos que separar o joio do trigo. Até o comando do General Mesquita, as expedições agiram em ação de polícia, ou seja, visando à segurança. As tropas de segurança pública não estavam treinadas, estavam mal armadas e não tinham treinamento para os tipos de operações, além de dificuldade de apoio. Em relação as tropas do Exército que participaram das expedições, a situação não era muito diferente. Faltou coordenação, pois não conheciam o terreno, não possuíam mapas e dependiam de vaqueanos - não confiáveis - para se deslocar. O apoio logístico foi falho e não estavam preparados para a luta antiguerrilha. Não havia unidade de comando.
MPSC - Quais as lições que o evento do Contestado trouxe para as forças armadas brasileiras?
General Aureliano - A primeira lição foi a necessidade de reorganização do Exército. Necessidade de uma missão militar estrangeira, a fim de atualizar a doutrina de emprego e as organizações militares, e a criação de escolas especializadas. Foi assim que, após a 1ª Guerra Mundial, tivemos a Missão Militar Francesa, durante mais de 30 anos, que nos assessorava. Também era necessário modernizar o armamento do Exército. Hoje, contamos com a Escola de Guerra nas Selvas (Manaus), que é a melhor do mundo, e com o Centro de Formação de Forças Especiais (Goiânia) muito bem estruturada. Além das Brigadas Mecanizada e Blindada e a de Paraquedistas.
MPSC - Quais as características da guerra em movimento no mato?
General Aureliano - Em primeiro lugar, tudo vai depender do terreno da zona de operações. No jargão militar há de diferenciar: campo, mato, mata, floresta, caatinga, montanha. Se for no Sul, basta uma tropa de Infantaria bem adestrada para o combate nas matas da região ou nas planícies do Rio Grande. Para isso, nos três Estados do Sul, temos brigadas de Infantaria, de Cavalaria Mecanizada e Cavalaria Blindada. Assim como batalhões logísticos. Se for no nordeste teríamos as Brigadas de Infantaria especializadas no combate em região de caatinga, além da Brigada de Infantaria de Montanha (Juiz de Fora). A selva amazônica exige a presença de Brigadas de Infantaria de Selva com pessoal treinado no Centro de Guerra na Selva, em condições de se deslocarem a pé, por via fluvial, por meio de helicópteros, etc. Sempre contando com paraquedistas, guerreiros de selva e o apoio logístico. Hoje, os nossos cadetes e sargentos são adestrados em todas essas áreas.
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