Escola Restaurativa chega ao Colégio Agrícola de Água Doce com círculos de construção de paz
Durante toda esta terça-feira (2/6), alunos e professores compartilharam experiências, falaram sobre desafios do cotidiano e conheceram diferentes perspectivas sobre situações comuns da convivência em comunidade. Projeto é coordenado pelo Ministério Público de Santa Catarina, por meio do Núcleo Permanente de Incentivo à Autocomposição.
Imagine alunos, professores e equipe escolar fazendo uma roda de cadeiras na sala de aula e trocando a rotina habitual por um dia de conversa, com reflexões e histórias de vida. Um coração de pano passa de mão em mão, e quem a segura fala sobre sentimentos enquanto os demais participantes escutam atentamente. Assim funcionam os círculos de construção de paz do projeto Escola Restaurativa, que é coordenado pelo Ministério Público de Santa Catarina (MPSC), por meio do Núcleo Permanente de Incentivo à Autocomposição (NUPIA). Essa dinâmica chegou ao Epagri-Cedup Professor Jaldyr Bhering Faustino da Silva, tradicionalmente conhecido como Colégio Agrícola do município de Água Doce, no Meio-Oeste.
Durante todo o dia, 13 facilitadores voluntários convidados pelo NUPIA conduziram círculos de construção de paz, com atividades que propuseram reflexões sobre temas como respeito, convivência, empatia e responsabilidade. Todos os participantes tiveram a oportunidade de compartilhar experiências, falar sobre desafios do cotidiano e conhecer diferentes perspectivas sobre situações comuns da convivência em comunidade.
O projeto Escola Restaurativa chegou ao Colégio Agrícola de Água Doce a pedido da Promotora de Justiça Márcia Denise Kandler Bittencourt, que atua na área da infância e juventude na Comarca de Joaçaba. Mais do que uma atividade pontual, os círculos deixaram como legado a importância do diálogo como ferramenta para a prevenção de conflitos e a construção de relações mais saudáveis.
“Os círculos de construção de paz têm como ponto central a escuta das pessoas. A metodologia trabalha a empatia, o diálogo e a construção conjunta de soluções, respeitando a realidade vivenciada por cada comunidade escolar. Por meio da Justiça Restaurativa, o Ministério Público de Santa Catarina, as instituições parceiras e os facilitadores demonstram que é possível identificar desafios, planejar caminhos e encontrar respostas de forma coletiva. Essa iniciativa representa um importante ponto de partida para fortalecer um ambiente saudável, acolhedor e propício ao aprendizado, prevenindo conflitos e valorizando as relações humanas dentro da escola”, destacou a Promotora de Justiça.
O coordenador do NUPIA, Promotor de Justiça Marco Aurélio Morosini, frisa que “a sensibilização marca o início de um novo momento no Colégio Agrícola de Água Doce, com a construção de uma nova maneira de abordagem de conflitos, com mais diálogo e respeito”.
Foco é compreender sentimentos, necessidades e impactos das atitudes
Em essência, a Escola Restaurativa parte de uma ideia muito humana: conflitos existem em qualquer comunidade. A diferença está na forma de enfrentá-los. Em vez de responder ao conflito com mais afastamento, a proposta busca aproximar as pessoas. Em vez de criar vencedores e perdedores, procura-se restaurar relações. E é justamente por isso que os círculos de construção de paz são considerados tão poderosos: eles transformam a conversa em uma ferramenta de cuidado, pertencimento e construção coletiva de soluções.
Por esse motivo, os círculos de construção de paz não servem apenas para resolver conflitos já existentes. Eles também funcionam como uma forma de prevenção. Ao fortalecer o sentimento de pertencimento, reduzir o isolamento e estimular o respeito mútuo, a metodologia ajuda a evitar situações de bullying, exclusão, violência e desentendimentos que poderiam se agravar no futuro.
A chefe do setor de apoio ao NUPIA e coordenadora do projeto Escola Restaurativa, Luciana Andréa Mattos, explica que o objetivo dos círculos de construção de paz não é descobrir quem está certo ou errado. O foco é compreender sentimentos, necessidades e impactos das atitudes. “Quando um estudante relata uma dificuldade, um professor compartilha um desafio ou um colega fala sobre algo que o machucou, todos são convidados a exercitar a escuta e a empatia. Aos poucos, surgem conexões que normalmente passariam despercebidas na correria da rotina escolar”, diz.
A dinâmica também permitiu momentos de integração entre pessoas que, embora compartilhem os mesmos espaços diariamente, nem sempre encontram tempo para conversar de forma mais profunda. Ao longo do dia, histórias de vida, sonhos, preocupações e aprendizados foram compartilhados, fortalecendo vínculos e criando um ambiente de maior confiança entre estudantes, professores e demais profissionais da escola.
Impacto dos círculos de construção de paz
A escola é um espaço de aprendizado, mas também de construção de valores e de relacionamentos. Nesse sentido, criar oportunidades para que as pessoas conversem, sejam ouvidas e aprendam a compreender diferentes realidades contribui para a formação de cidadãos mais conscientes, empáticos e preparados para a vida em sociedade. É exatamente essa transformação que os círculos de construção de paz buscam promover.
Uma característica interessante desses círculos é que os relatos dos participantes costumam ser muito emocionais. Alunos e professores afirmam que se sentem leve, acolhidos ou simplesmente felizes por terem tido a possibilidade de falar sobre si mesmos, demonstrando que, muitas vezes, o maior resultado não é a solução imediata de um problema, mas a oportunidade de ser ouvido.
A coordenadora pedagógica do CEDUP, Juliana Faoro Gomes, falou sobre a presença do projeto Escola Restaurativa na instituição. “Através dos círculos de construção de paz, conseguimos entender como podemos trabalhar a partir do diálogo preventivo à violência e como lidar com os conflitos”, disse ela.
O encerramento do evento foi marcado por muita emoção. Os facilitadores voluntários foram homenageados e receberam das mãos de alunos produtos do Colégio Agrícola. A diretora Dirlei Zoletti Wensel e a diretora de ensino agrotécnico da Epagri, Andréia Meira, agradeceram a todos por dedicarem tempo à instituição.
Sobre a Escola Restaurativa
O projeto Escola Restaurativa é uma iniciativa do Grupo Gestor de Justiça Restaurativa no Estado de Santa Catarina, criado em 2019 por meio de um acordo de cooperação entre o MPSC, o Tribunal de Justiça de Santa Catarina, o Governo do Estado, a Defensoria Pública, a Ordem dos Advogados do Brasil - Seção Santa Catarina, a Federação Catarinense de Municípios, a Universidade do Estado de Santa Catarina e a Universidade do Sul de Santa Catarina.
Coordenado pelo MPSC, por meio do NUPIA, o projeto utiliza os círculos de construção de paz para promover a prevenção, a resolução e a transformação de conflitos no ambiente escolar. Idealizada a partir de estudos sobre práticas restaurativas e prevenção da judicialização nas escolas, a iniciativa já alcançou diversas regiões catarinenses, fortalecendo a cultura do diálogo, da escuta e da convivência pacífica entre estudantes, educadores e comunidades escolares.
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