Agosto Lilás: Promotor de Justiça inicia ciclo de palestras sobre combate à violência contra as mulheres na Comarca de Campo Belo do Sul
A primeira palestra aconteceu em uma cooperativa ligada ao ramo do agronegócio no município de Campo Belo do Sul. O membro do Ministério Público de Santa Catarina abordou os diferentes tipos de violência previstos na Lei Maria da Penha, a importância de identificar os primeiros sinais do ciclo da violência e o papel de toda a sociedade na prevenção, no enfrentamento e na construção de relações baseadas no respeito.
Neste Agosto Lilás, o Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) está realizando uma série de ações de enfrentamento à violência doméstica e familiar contra as mulheres. O Promotor de Justiça Murilo Rodrigues da Rosa iniciou um ciclo de palestras sobre o tema na Comarca de Campo Belo do Sul, que abrange ainda os municípios de Capão Alto e Cerro Negro. A primeira delas aconteceu nesta terça-feira (4/8) em uma cooperativa ligada ao ramo do agronegócio, reunindo colaboradores.
A programação começou com a exibição do episódio da websérie Ausências, do MPSC, "Não Me Deixaram Viver", que conta a história da adolescente Ana Kémilli Taques Krindges, brutalmente assassinada em um assentamento de Campo Belo do Sul, em fevereiro de 2021.
Na sequência, o membro do MPSC iniciou sua abordagem ressaltando que a violência doméstica não é um problema restrito ao ambiente familiar, mas uma grave violação de direitos humanos que afeta toda a sociedade. Ele reforçou que a prevenção passa, necessariamente, pela informação, pela conscientização e pelo envolvimento de toda a comunidade no enfrentamento a esse tipo de violência.
"O feminicídio não começa no primeiro tapa, mas muito antes, com o controle, a humilhação, as ameaças e o isolamento da vítima. Quando a sociedade aprende a reconhecer esses sinais, ela também aprende a salvar vidas. Conflitos podem ser resolvidos pelo diálogo. Violência nunca é consequência inevitável de uma discussão; ela é uma decisão de quem escolhe intimidar, controlar e agredir”, disse.
Formas de violência
Ao longo da palestra, o Promotor de Justiça falou sobre as diferentes formas de violência previstas na Lei Maria da Penha, enfatizando que nem toda agressão deixa marcas físicas. “Humilhações constantes, ameaças, controle sobre a vida da mulher, isolamento social, retenção de documentos e recursos financeiros, perseguição e violência psicológica também configuram violência doméstica e podem representar o início de um ciclo que, se não interrompido, pode culminar no feminicídio”, explicou.
Ele também convidou os participantes a refletirem sobre a responsabilidade individual na construção de relações mais respeitosas e livres de violência. "Cada um de nós precisa se perguntar: existe alguma forma como trato minha companheira hoje que eu jamais aceitaria que alguém tratasse minha filha amanhã? Essa reflexão pode transformar comportamentos e evitar novas vítimas”, salientou.
Dados da comarca
O Promotor de Justiça também compartilhou dados da violência doméstica na comarca. Entre 2020 e junho de 2026, o município de Campo Belo do Sul registrou 273 ocorrências, enquanto Capão Alto contabilizou 146 e Cerro Negro, 107. Em relação à natureza dos crimes, a ameaça lidera as estatísticas, seguida por lesão corporal, injúria, difamação, vias de fato e estupro.
“Esses dados não são apenas estatísticas. Cada ocorrência representa uma mulher que teve sua dignidade violada e uma família impactada pela violência. Isso reforça a importância da conscientização e da atuação preventiva para romper o ciclo da violência antes que ele evolua para casos mais graves. Nosso desafio é agir antes que esses números se transformem em novas tragédias”, frisou.
Realidade de Campo Belo do Sul
A psicóloga técnica de Gestão da Secretaria Municipal de Assistência Social, Natalie Ellen dos Santos, falou sobre a necessidade de fortalecer o enfrentamento à violência contra a mulher em uma cidade de pequeno porte, onde ainda não existe uma política pública específica voltada ao tema.
“O objetivo é que as ações do Agosto Lilás não se limitem a um determinado período, mas se consolidem como uma iniciativa permanente, incorporada ao trabalho desenvolvido pela rede socioassistencial. Queremos que essa discussão faça parte da rotina do município e que novas políticas públicas possam surgir, ampliando a proteção e o atendimento às mulheres e às famílias", afirmou.
A profissional também chama atenção para a possível subnotificação dos casos de violência doméstica em Campo Belo do Sul. De acordo com ela, a grande extensão territorial do município, que possui inúmeras comunidades do interior, dificulta que muitas situações cheguem ao conhecimento da rede de proteção.
"Infelizmente, acreditamos que existam muitos casos que não chegam aos canais oficiais de denúncia. Muitas vezes, quando essas situações são identificadas, a violência já atingiu um nível de urgência. Por isso, é fundamental promover ações de conscientização, incentivar as denúncias e atuar para interromper esse ciclo, evitando que novas violações aconteçam", ressaltou.
Impacto na cooperativa
O diretor da cooperativa, Joselito Matos, ressaltou a importância de levar a campanha para o ambiente de trabalho, destacando que a informação e o diálogo podem contribuir para a construção de relações mais saudáveis também dentro das famílias. "Receber o Ministério Público de Santa Catarina e o Município é uma oportunidade de conscientizar nossos colaboradores sobre um tema tão importante. Queremos que cada funcionário seja um agente multiplicador dessa mensagem dentro de casa, contribuindo para reduzir os casos de violência doméstica em nosso município", afirmou.
Joselito também deixou uma mensagem direcionada aos homens, reforçando a importância da reflexão e da busca por mudança de comportamento. "É preciso ter consciência e buscar conhecimento para evoluir como pessoa. Assim, conseguimos fortalecer nossas famílias, dar bons exemplos aos nossos filhos e construir um ambiente de respeito, diálogo e responsabilidade para as futuras gerações", concluiu.
Denuncie
Se você sofre ou conhece alguma mulher em situação de violência doméstica, denuncie:
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Ouvidoria MPSC: ligue 127 ou preencha o formulário on-line;
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Núcleo de Enfrentamento a Violências e Apoio às Vítimas (NEAVIT): clique aqui e veja como buscar atendimento;
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Polícia Militar: ligue 190;
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Polícia Civil: ligue 181 ou faça um boletim de ocorrência on-line;
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Central de Atendimento à Mulher: ligue 180.
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