Agosto Lilás: palestras reuniram mais de mil pessoas na Comarca de Campo Belo do Sul
O Promotor de Justiça da comarca foi a empresas, escolas e repartições públicas dos municípios de Campo Belo do Sul, Capão Alto e Cerro Negro para conversar com trabalhadores e estudantes sobre o enfrentamento à violência doméstica e familiar contra as mulheres.
A Comarca de Campo Belo do Sul, na Serra, é marcada por casos de feminicídio que jamais sairão da memória, como o da adolescente que teve o corpo ocultado na mata em um assentamento, em 2021, o da filha morta pelo próprio pai por conta de uma herança em Cerro Negro, em 2022, e o da mulher assassinada pelo ex-companheiro na frente do filho em Capão Alto, em 2023. Nos últimos seis anos, os três municípios também registraram mais de 500 ocorrências relacionadas a outros crimes contra mulheres, como estupros, ameaças, lesões corporais, injúrias, difamações e vias de fato.
Mudar essa realidade demanda um trabalho preventivo de conscientização e, neste Agosto Lilás, o Promotor de Justiça do Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) na comarca, Murilo Rodrigues da Rosa, fez uma série de palestras em escolas, empresas e repartições públicas sobre o enfrentamento à violência doméstica e familiar contra as mulheres.
Os 12 encontros reuniram mais de mil pessoas, entre estudantes, servidores públicos e trabalhadores da iniciativa privada. “Mais do que levar informação, nosso objetivo foi provocar uma reflexão. Espero que, em cada lugar por onde passamos, uma semente tenha sido plantada, para que os moradores da comarca passem a olhar para essa realidade com mais atenção e, principalmente, respeitem cada vez mais as mulheres”, diz o Promotor de Justiça.
Durante as palestras, ele apresentou as diferentes formas de violência previstas na Lei Maria da Penha, explicando que elas não se resumem à agressão física. “Violências psicológica, sexual, patrimonial e moral também fazem parte desse cenário e podem causar consequências profundas na vida das vítimas”, explicou. A orientação foi para que essas situações não sejam naturalizadas ou tratadas como simples conflitos entre casais.
O Promotor de Justiça também destacou que a violência doméstica e familiar contra a mulher não é um problema restrito ao ambiente privado ou às relações familiares. Trata-se de uma grave violação de direitos humanos que afeta toda a sociedade, produzindo consequências para as vítimas, seus filhos, familiares e a comunidade. “Quando uma mulher sofre violência dentro de casa, toda a sociedade é atingida. Não podemos tratar isso como um problema particular, porque estamos falando de uma violação de direitos e de uma realidade que precisa ser enfrentada coletivamente”, frisou.
Outro tema abordado foi o ciclo da violência doméstica. A partir de situações que podem começar com comportamentos aparentemente menos graves, como ciúmes excessivos, controle, humilhações e ameaças, a violência pode se intensificar e se repetir ao longo do tempo. Por isso, reconhecer os primeiros sinais é fundamental para interromper esse ciclo antes que ele evolua para agressões cada vez mais graves.
As palestras também serviram como um convite à reflexão sobre a responsabilidade individual de cada pessoa na construção de relações mais respeitosas e livres de violência. O Promotor de Justiça destacou que o enfrentamento à violência contra a mulher não depende apenas da atuação das instituições públicas, mas também da mudança de comportamentos e da disposição da sociedade em não tolerar atitudes abusivas.
“Cada um de nós tem responsabilidade nessa mudança. Precisamos ensinar nossos filhos, orientar nossos amigos, questionar comportamentos violentos e não permanecer em silêncio diante de uma situação de violência. O respeito precisa estar presente desde as relações mais simples do nosso cotidiano”, conclui o Promotor de Justiça.
Caso ocorrido em Campo Belo do Sul foi contado em websérie e citado nas palestras
O caso de Ana Kemili, adolescente de 14 anos assassinada em fevereiro de 2021 no assentamento 17 de abril, em Campo Belo do Sul, também foi apresentado durante as palestras (assista o vídeo). A história integra a websérie “Ausências: as histórias por trás do Mapa do Feminicídio”, lançada neste ano pelo MPSC para dar visibilidade às histórias das vítimas e aos impactos da violência sobre familiares e pessoas próximas. Ana Kemili foi morta após recusar um relacionamento. Seu corpo foi encontrado dois dias depois em uma área de mata.
Ao abordar o caso, o Promotor de Justiça reforçou que histórias como essa não podem ser reduzidas a números ou esquecidas com o passar do tempo. A apresentação serviu como um alerta sobre a necessidade de reconhecer sinais de violência e de intervir antes que situações de controle, ameaças, isolamento e sentimento de posse evoluam para agressões mais graves. A websérie reúne quatro histórias reais de feminicídio e busca justamente provocar essa reflexão sobre as ausências deixadas por essas mortes e sobre a importância da prevenção.
Sua denúncia pode transformar uma realidade
O Promotor de Justiça Murilo Rodrigues da Rosa também explicou as possíveis consequências jurídicas para quem pratica crimes contra as mulheres, destacando a importância de responsabilizar os autores e interromper o ciclo de violência. Durante os encontros, ele orientou ainda sobre os canais disponíveis para denúncia e reforçou que vítimas, familiares e pessoas que tenham conhecimento de situações de violência podem buscar ajuda e comunicar os casos às autoridades competentes. “Denunciar é uma forma de romper o silêncio e pode ser decisivo para impedir que a violência avance. Quanto mais cedo uma situação for identificada e comunicada, maiores são as possibilidades de proteger a vítima e evitar consequências ainda mais graves”, ressaltou.
Canais de denúncia
Se você sofre ou conhece alguma mulher em situação de violência doméstica, denuncie:
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Ouvidoria MPSC: ligue 127 ou preencha o formulário on-line;
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Núcleo de Enfrentamento a Violências e Apoio às Vítimas (NEAVIT): clique aqui e veja como buscar atendimento;
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Polícia Militar: ligue 190;
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Polícia Civil: ligue 181 ou faça um boletim de ocorrência on-line;
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Central de Atendimento à Mulher: ligue 180.
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