Parceria entre MPSC e FECAM forma voluntários para levar a cultura da paz a escolas de Lages e região
Cerca de 100 pessoas de Lages, Bocaina do Sul, São José do Cerrito e Painel foram preparadas para atuar no projeto Escola Restaurativa, que é liderado pelo Núcleo Permanente de Incentivo à Autocomposição do Ministério Público de Santa Catarina, levando círculos de construção de paz para as unidades de ensino.
“Esse círculo de construção de paz fez uma mudança enorme na minha vida. É um divisor de águas. Pensei que ia aprender a resolver os conflitos dos outros, mas acabei apreendo que primeiro preciso resolver os meus próprios conflitos internos Eu acho que todos precisam conhecer”. A afirmação é da professora Glaucelene Xavier, ao relatar a experiência de participar de uma formação para levar a cultura da paz às escolas. O evento ocorreu entre terça (22/9) e quinta-feira (24/9), no Centro Universitário Unifacvest, em Lages, como fruto de um acordo de cooperação entre o Núcleo Permanente de Incentivo à Autocomposição (NUPIA) do Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) e a Federação Catarinense dos Municípios (FECAM).
Cerca de 100 pessoas de Lages, Bocaina do Sul, São José do Cerrito e Painel foram preparadas para atuar no projeto Escola Restaurativa, que é liderado pelo NUPIA, levando círculos de construção de paz para as unidades de ensino, com o objetivo de promover o diálogo, fortalecer vínculos, prevenir situações de violência e contribuir para a resolução pacífica de conflitos.
Para o coordenador do NUPIA, Promotor de Justiça Marco Aurélio Morosini, a formação representa o início de uma nova etapa do projeto Escola Restaurativa, com mais voluntários preparados para levar o conhecimento adquirido a alunos, professores, gestores e comunidade em geral. “Foi uma formação muito importante, que preparou esses voluntários para uma missão que vai muito além de aprender uma técnica. Eles estão preparados para disseminar a cultura da paz, levando para as escolas a possibilidade de diálogo, escuta e construção coletiva de soluções. É muito gratificante ver pessoas dispostas a dedicar seu tempo para transformar as relações dentro das escolas”, avalia.
Círculos de construção de paz que transformam vidas
A formação foi ministrada por instrutoras que um dia também participaram de cursos para se tornarem facilitadoras e tiveram experiências práticas com os círculos de construção de paz. Entre elas está Raquel Gomes Sliachticas, de Brusque. “Eu fiz o curso para ser facilitadora e agora estou tendo a experiência de ser instrutora. É uma experiência muito transformadora e enriquecedora. A grande maioria da turma nunca tinha ouvido falar sobre justiça restaurativa e, logo no início, eles pensavam que estavam ali para resolver os conflitos dos outros, mas, no decorrer do curso, perceberam que os conflitos que precisam resolver são os próprios conflitos. Eles precisam estar bem para conseguir trabalhar no coletivo e transformar vidas por meio dos círculos de construção de paz.”
Entre os participantes estava Daniele Cristina Deliz, que trabalha como assessora de direção em uma escola de Bocaina do Sul. Para ela, a formação dialoga diretamente com o trabalho desenvolvido pelas escolas e com as habilidades previstas na Base Nacional Comum Curricular (BNCC), especialmente no que diz respeito à formação humana. “A cultura da paz vem ao encontro do que a escola almeja em relação às habilidades essenciais para a formação humana. Então, precisamos de um ambiente acolhedor, de pessoas mais humanizadas, e esse encontro traz exatamente esse resgate, em que as pessoas conseguem olhar para dentro de si, refletir sobre quem são e qual é a sua contribuição para a sociedade e para o mundo, para construir um ambiente mais acolhedor e aconchegante”, frisou.
A diretora escolar Karine Aparecida Murer conta que, desde os primeiros momentos, percebeu o potencial da metodologia para a realidade das escolas. “Eu não tinha muito conhecimento sobre o que seria o curso, mas, desde o primeiro momento, me senti motivada com essa técnica dos círculos de construção de paz. Gostei muito de participar, estou bem feliz e acho que as escolas estão precisando desse olhar cuidadoso com a comunidade. Vamos poder usar essa metodologia para resolver pequenos conflitos e situações como o bullying, que está sendo uma questão muito complicada”, frisou.
Formação deve chegar a outras regiões
A formação realizada em Lages foi um projeto-piloto dentro do acordo de cooperação, e a supervisora de políticas públicas de educação da FECAM, Marinez Zambon, diz que o objetivo é ampliar o alcance para outras regiões do estado, formando novos facilitadores para alcançar o maior número possível de alunos, professores e gestores das redes municipais com os círculos de construção de paz.
Para entender o funcionamento desses círculos, imagine alunos, professores e equipe escolar fazendo uma roda de cadeiras na sala de aula e trocando a rotina habitual por um dia de conversa, com reflexões e histórias de vida. Um coração de pano vai passando de mão em mão, e quem o segura fala sobre sentimentos enquanto os demais participantes escutam atentamente. O diálogo e as reflexões geram compreensão, empatia e melhoram as relações.
O Promotor de Justiça Gabriel Rosa Bernábio, que atua na área da educação na comarca de Lages, diz que essa metodologia vem transformando vidas ao despertar nas pessoas a capacidade de se colocar no lugar das outras, compreender diferentes realidades e olhar para as relações com mais empatia e compreensão. “Tudo começa dentro de cada participante e se reflete na família, na escola, na comunidade e em todos os espaços onde essas pessoas convivem”, explica.
Sobre o NUPIA
O Núcleo Permanente de Incentivo à Autocomposição do MPSC é voltado à promoção e ao fortalecimento de métodos consensuais de resolução de conflitos. A autocomposição busca estimular o diálogo e a participação das próprias pessoas envolvidas na construção de soluções, por meio de práticas como a negociação, a mediação, a conciliação e as práticas restaurativas.
Nesse contexto, o NUPIA desenvolve iniciativas que contribuem para uma atuação mais preventiva e resolutiva, buscando evitar que conflitos se agravem ou cheguem ao Judiciário. O projeto Escola Restaurativa, por exemplo, leva essa proposta para o ambiente escolar, utilizando os círculos de construção de paz como ferramenta para promover o diálogo, fortalecer os vínculos e prevenir situações de violência.