Entre a influência e a consciência: o desafio da educação em tempos de persuasão
Por Affonso Ghizzo Neto, Promotor de Justiça e Coordenador do Programa Educando Cidadãos.
A obra de Elliot Aronson nos convida a encarar uma verdade desconfortável: o comportamento humano não nasce isolado, mas é profundamente moldado pelo meio em que experimentamos. Somos, antes de tudo, seres sociais, influenciados por contextos, relações e narrativas. A ideia de que indivíduos agem apenas por caráter próprio é simplista diante das evidências da psicologia social. Situações têm poder — e, muitas vezes, mais poder do que imaginamos.
Ao longo da história, essa influência mostrou sua face mais sombria e também sua face mais luminosa. Regimes como o Nazismo e o Fascismo demonstraram como pessoas comuns podem ser levadas a atos extremos sob determinadas condições sociais e políticas. Ao mesmo tempo, movimentos de cooperação, solidariedade e reconstrução revelam que o mesmo ser humano é capaz de promover o bem coletivo quando inserido em contextos que favorecem empatia e propósito comum.
Aronson evidencia que pessoas consideradas “boas” podem agir de forma prejudicial dependendo das circunstâncias. Experimentos clássicos mostram que indivíduos comuns podem causar dor a outros quando orientados por uma autoridade legítima. Isso nos obriga a abandonar julgamentos simplistas: não se trata apenas de quem somos, mas de onde estamos, com quem estamos e sob quais pressões decidimos agir.
Nesse cenário, a propaganda — hoje amplificada pelas redes sociais — exerce um papel central. Somos constantemente expostos a tentativas de persuasão, muitas vezes disfarçadas de informação. A chamada “propaganda de versões” cria narrativas que competem pela nossa adesão emocional, nem sempre comprometidas com a verdade. Ainda assim, por mais forte que seja a desinformação, a verdade não desaparece: ela pode estar soterrada, mas persiste. E é justamente a educação que se apresenta como ferramenta essencial para desenterrá-la.
A ciência, embora imperfeita, continua sendo o melhor instrumento que temos para nos aproximar do real. Ela se baseia em evidências, em fatos observáveis, e nos convida a questionar nossas próprias crenças — algo que o ser humano resiste em fazer. Existe em nós uma forte tendência de justificar opiniões, mesmo quando equivocadas, muitas vezes por ego ou ignorância acomodada. Admitir um erro é difícil, mas necessário para evitar injustiças, dores e sofrimentos. A pergunta que deve nos guiar é simples e poderosa: estamos buscando a verdade ou apenas defendendo aquilo em que já acreditamos?
É nesse ponto que o Programa Educando Cidadãos do MPSC dialoga com Aronson. A transformação social começa no indivíduo, mas não termina nele. A consciência cidadã exige responsabilidade sobre nossas escolhas, sobre o que consumimos, compartilhamos e defendemos. Educar para a verdade é também educar para a responsabilidade coletiva — romper com o ciclo de manipulação exige vigilância ética e compromisso com o bem comum.
Apesar do cenário atual — marcado por polarizações, conflitos e desinformação —, há espaço para esperança. A própria psicologia social mostra que preconceitos podem ser quebrados quando pessoas diferentes trabalham juntas por objetivos comuns. Quando deixamos de focar nas diferenças superficiais e passamos a valorizar aquilo que nos une, criamos um ciclo virtuoso de cooperação. O desafio está lançado: resistir à manipulação, valorizar a verdade e reconstruir, juntos, o sentido de coletividade que pode impedir que a humanidade caminhe rumo à autodestruição.
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Artigo originalmente publicado em "O Estado de São Paulo" nesta segunda-feira (23/3).
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