Escola Restaurativa promove círculos de construção de paz em escolas do Oeste
Mais de 300 participantes foram mobilizados em dois dias de ações em escolas de Palmitos e Caibi.
"Eu não sabia o quanto eu precisava desse momento, me ajudou muito e eu estou me sentindo muito bem aqui", revelou, espontaneamente, um aluno do sexto ano durante a dinâmica de círculo de construção de paz realizada na tarde desta quinta-feira (10/9). Ele foi um dos 267 estudantes atendidos pelo ciclo de atuação do programa Escola Restaurativa na EEB Felisberto de Carvalho, em Palmitos, e na EEB Dom Pedro II, em Caibi. Promovida pelo Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) por meio do Núcleo Permanente de Incentivo à Autocomposição (NUPIA), a iniciativa busca disseminar práticas positivas nas escolas catarinenses, centradas na harmonia, na escuta e no diálogo.
Em Caibi e em Palmitos, entre estudantes e convidados, a ação sensibilizou 307 participantes. Entre eles, estavam 267 estudantes de 15 turmas de alunos dos anos finais do Ensino Fundamental e do Ensino Médio, no período noturno de quarta-feira (9/9) e nos turnos matutino e vespertino desta quinta-feira (10/9). As atividades incluíram ainda duas turmas com 20 convidados cada, reunindo profissionais que atuam na rede de proteção social e servidores municipais das áreas de educação e saúde.
O projeto da Escola Restaurativa chegou à Comarca de Palmitos após solicitação de apoio emitida pela Promotora de Justiça Patrícia Castellem Strebe, que conheceu a metodologia durante o seu curso de formação. “Foi transformador ter contato e integrar um círculo de construção de paz. Já como titular aqui em Palmitos, por se tratar de uma comarca com apenas uma Promotoria de Justiça, pude perceber o quanto as demandas relacionadas a crianças e adolescentes passavam centralmente pelas escolas. A partir dessa percepção da realidade local, surgiu a intenção de trazer o projeto da Escola Restaurativa para os dois municípios que integram a nossa comarca”, explicou.
A metodologia
Para fortalecer os vínculos e promover a escuta ativa e o diálogo como formas pacíficas de resolução de conflitos, a iniciativa emprega uma metodologia da Justiça Restaurativa conhecida como círculos de construção de paz. Com as cadeiras escolares dispostas formando uma roda de conversa, os participantes são convidados a falar, ouvir, refletir e compartilhar histórias de vida. Os temas são propostos pelos facilitadores da turma.
No centro da roda, ficam objetos importantes para a narrativa do encontro e uma girafa de pelúcia, que simboliza a comunicação não violenta, por se tratar de um animal que enxerga longe e que possui o maior coração entre os animais terrestres. De forma horizontal, um coração de pano passa de mão em mão. Cada um pode falar somente quando segura o objeto. Os demais escutam e se conectam com o relato do colega. No decorrer da interação, os participantes são estimulados a refletir sobre convivência, empatia, vulnerabilidade e respeito.
Ação em Palmitos e Caibi contou com 14 facilitadores voluntários
As atividades foram coordenadas por duas integrantes do NUPIA, a Assessora Jurídica Sarah Zannin Farias e a Assistente de Promotoria de Justiça Bárbara Eichelberger Klein. Elas também atuaram como facilitadoras. “Nesses dois dias nós trabalhamos com alunos desde o sexto ano até o ensino médio. Foi muito satisfatório ter essa variedade de idades e ter a percepção de que o projeto toca crianças, adolescentes e adultos. Com a sensibilização, por meio da Justiça Restaurativa, nós trabalhamos valores e diretrizes para gerar conexão. O nosso roteiro também se atenta às demandas identificadas pela rede de proteção e pelos integrantes da comarca”, esclareceu a Assistente de Promotoria de Justiça Bárbara Eichelberger Klein.
Nos dois dias em Caibi e Palmitos atuaram 14 facilitadores voluntários. Entre eles, Carlos Eduardo Theodoro, Oficial do MPSC na Comarca de Lages. Ele concluiu a capacitação para atuar nos círculos de construção de paz por meio do Centro de Estudos e Aperfeiçoamento Funcional (CEAF). Na EEB Felisberto de Carvalho, em Palmitos, Carlos Eduardo teve a oportunidade de atuar pela primeira vez como facilitador no âmbito do Escola Restaurativa. “A dinâmica foi incrível e muito produtiva. Foi gratificante ver o engajamento da turma e o quanto os alunos saíram empolgados”, avaliou, após concluir o trabalho com uma turma do 2º ano do Ensino Médio na manhã de quinta-feira (10/9).
Em Caibi, o grupo de facilitadores contou com a experiência da assistente social Rose Duarte, que acompanha o projeto desde o início. “É emocionante ver o quanto faz sentido continuarmos as nossas atividades nas escolas e o quanto o espaço de escuta e de fala do coração tem transformado vidas dos nossos alunos em Santa Catarina”, declarou ela.
A assistente social do Fórum de Palmitos, Iolete de Jesus, também foi uma das facilitadoras do ciclo. “É algo que me satisfaz muito, porque acredito que aqui, nas escolas, podemos fazer a diferença e divulgar a comunicação não-violenta, os círculos de construção de paz, as modalidades de resolução de conflitos. É uma satisfação enorme conversar com os alunos, estar com os professores”, pontuou.
Após o encerramento das turmas, os facilitadores, gestores escolares e os servidores que participaram das turmas de convidados se reuniram no salão do Tribunal do Júri do Fórum de Palmitos. Para esse público, a Promotora de Justiça Patrícia Castellem Strebe detalhou as próximas etapas que virão para promover resultados duradouros na comarca. “Findado esse primeiro ciclo de sensibilização, a nossa intenção é partir para uma capacitação para habilitar pessoas da nossa região para atuar como facilitadores e finalmente, num terceiro momento, conseguirmos criar uma legislação municipal para tratar do tema da cultura da paz nos dois municípios. Por isso, a presença de vocês aqui é fundamental”, concluiu.
“Foi um desafio facilitar simultaneamente em duas escolas, em turnos diferentes, com turmas tanto do ensino fundamental quanto do ensino médio. O resultado foi um roteiro abrangente para fazer crianças e adolescentes se conectarem. Daqui de Palmitos eu levo uma experiência maravilhosa e muito engrandecedora. Pude perceber o quanto os alunos aproveitaram o nosso espaço para se conhecer melhor entre si e se sentirem mais conectados”, enfatizou a Assessora Jurídica do NUPIA e facilitadora Sarah Zannin Farias.
Alunos elogiaram a dinâmica
A EEB Dom Pedro II, em Caibi, teve nove turmas contempladas pelos círculos de construção de paz, totalizando 143 alunos. Na tarde de quinta-feira (10/9), as atividades incluíram turmas do 6º e 9º ano. Ao final, os alunos avaliaram positivamente.
Estudante do 9º ano, Tercy Bregalda disse que gostou de participar. “Foi muito bom ter uma metodologia assim e poder se abrir e falar com os colegas. Isso merece ser repassado para outras escolas do estado”, afirmou. O seu colega Lucas Spzia também comentou a sua percepção. “Nós pudemos falar uns com os outros e assim conhecer mais as pessoas da nossa sala e fatos que ainda não sabíamos”, disse ele.
Dois estudantes do 6º ano também quiseram contar como foi para eles a tarde participando dos círculos de construção de paz da Escola Restaurativa do Ministério Público. Segundo João Vitor Noviski, ele aprendeu “bastante coisa e muitas lições para a vida”. “Como o João disse, foi muito legal, a gente aprendeu muito, mas também foi desafiador se abrir com os colegas e saber mais coisas da vida um do outro e até da nossa própria vida, que a gente ainda não sabia. Foi bem legal, desafiador, acolhedor”, acrescentou o seu colega Davi Berti dos Santos.
A supervisora escolar Pamella Binda acompanhou a dinâmica ao lado de uma turma do 6º ano. “Foi um momento muito importante para nos ajudar a buscar resolver conflitos por meio do diálogo e a desenvolver empatia, compreensão e respeito. Assim nós conseguimos compartilhar vivências e compreender um pouco melhor os seus sentimentos e os dos colegas”, destacou ela.
A assistente social Anaclete Secchi, que participou enquanto convidada de atividade ofertada na EEB Felisberto de Carvalho, em Palmitos, teceu avaliação positiva. “Foi sensacional cada um ter o seu tempo de falar. Quem gosta de falar muito, quem prefere falar pouco, todos tivemos o instrumento da palavra em mãos. Foi muito gratificante e espero ter a oportunidade de estar em novos encontros da Escola Restaurativa”, relatou.
“A partir dessa experiência, que incluiu os círculos também com agentes da rede de proteção, queremos ampliar a compreensão sobre essa modalidade e, na medida do possível, aplicar em situações pontuais de conflito. Os conflitos fazem parte da vida, as pessoas muitas vezes pensam diferente e vão acontecer conflitos. Mas podemos aprender a lidar com essas situações a partir de um novo olhar sobre os relacionamentos entre as pessoas, sob a perspectiva de uma cultura de paz. Nós adultos e também educando as nossas crianças para viver em uma sociedade não violenta”, salientou a Promotora de Justiça Patrícia Castellem Strebe.