Capacitação discute o papel da escuta no acolhimento de mulheres vítimas de violência

Primeiro atendimento pode ser decisivo para que vítimas tenham acesso à proteção e aos seus direitos.

15.10.2026 18:16

Atender é informar, registrar e encaminhar. Acolher é ouvir sem julgamentos, criar vínculos de confiança e oferecer segurança para que uma vítima consiga seguir em busca de proteção. A diferença entre esses dois conceitos esteve no centro da capacitação realizada nesta quinta-feira (15/10), em Florianópolis, com participação presencial e transmissão pela plataforma Teams.
 
Promovida pelo Centro de Estudos e Aperfeiçoamento Funcional (CEAF) a pedido da Ouvidoria do MPSC, a atividade reuniu integrantes da equipe da Ouvidoria, membros, servidores, residentes e estagiários do Ministério Público de Santa Catarina que atuam em áreas relacionadas à temática, além de convidados externos.
 
A capacitação foi conduzida por Ana Luiza Gomes Pereira Torresia, psicóloga e coordenadora da Ouvidoria das Mulheres do Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), e abordou a importância da escuta qualificada no atendimento a meninas e mulheres vítimas de violência.
 
Durante a palestra, Ana Luiza destacou que o primeiro contato com orgãos que integram a rede de proteção, como o Ministério Público, pode influenciar diretamente a decisão da vítima de prosseguir ou não com a denúncia e buscar os mecanismos de proteção disponíveis. Isso porque, antes mesmo de procurar ajuda, muitas mulheres enfrentam barreiras como medo, vergonha, dependência emocional, sentimento de culpa e vínculos familiares ou afetivos com o agressor.

"Atendimento a gente encontra em qualquer lugar onde exista um serviço. Agora, um acolhimento humanizado, com escuta, empatia e presença, nem sempre a vítima encontra com facilidade", observou.

Escutar também é proteger
 
Um dos principais temas abordados foi a necessidade de uma escuta qualificada, capaz de fazer com que a vítima se sinta efetivamente ouvida, acolhida compreendida e respeitada.
 
Segundo a palestrante, o acolhimento humanizado exige atenção integral à pessoa atendida, livre de interrupções e julgamentos. Mais do que coletar informações, o objetivo é construir um ambiente seguro para que a mulher consiga relatar o que aconteceu e compreender quais caminhos de proteção estão disponíveis.
 
Ana Luiza ressaltou ainda que a falta de acolhimento adequado pode gerar violência institucional, quando a vítima procura ajuda justamente em um espaço criado para protegê-la e não encontra escuta, respeito ou atenção às suas necessidades.
 
"O vínculo de confiança não significa transformar aquele momento em terapia. Significa fazer a pessoa se sentir segura para compartilhar uma situação extremamente difícil com alguém que ela muitas vezes nunca viu antes", explicou.
 
Compreender a violência para acolher melhor
 
A capacitação também tratou das diferentes formas de violência previstas na Lei Maria da Penha, como as violências física, psicológica, sexual, patrimonial, moral e vicária, esta última caracterizada pelo uso de filhos ou pessoas próximas para atingir emocionalmente a mulher.

Ao abordar a violência psicológica, a palestrante chamou atenção para a dificuldade de identificação desse tipo de agressão, que muitas vezes começa com humilhações, ameaças e controle excessivo. Também foi discutida a dinâmica da violência doméstica, frequentemente representada como uma espiral, evidenciando que os episódios tendem a se repetir e a se agravar ao longo do tempo.
 
Nesse contexto, foi destacada a importância de respeitar a autonomia da vítima e compreender que o rompimento de uma relação violenta costuma ser um processo complexo, atravessado por fatores emocionais, familiares, financeiros e sociais.
 
Violência também acontece no ambiente digital
 
As transformações tecnológicas e o avanço da inteligência artificial também foram tema da capacitação. Entre os exemplos apresentados estão o assédio online, a perseguição virtual (cyberstalking), a divulgação não autorizada de conteúdos íntimos e a produção de imagens falsas utilizadas para ameaçar ou extorquir vítimas.
 
A palestrante alertou que, mesmo quando uma imagem manipulada pode ser posteriormente desmentida, os impactos emocionais, sociais e profissionais provocados pela exposição muitas vezes permanecem.
 
Ao longo da capacitação, os participantes refletiram sobre formas de tornar o atendimento mais humano e evitar a revitimização de meninas e mulheres que procuram ajuda.
 
"A proteção começa pela escuta. Antes dos formulários, dos procedimentos e dos encaminhamentos, é preciso garantir que a vítima encontre um ambiente seguro para falar sobre uma experiência marcada por medo, sofrimento e vulnerabilidade", concluiu Ana Luiza.