Sem casos de evasão escolar, escola de Águas Frias é destaque no Programa APOIA
A Escola do Campo em Tempo Integral Tarumãzinho se destaca por boas práticas e um projeto pedagógico inovador.
Com foco na prevenção da evasão escolar, o Programa APOIA, desenvolvido pelo Ministério Público de Santa Catarina (MPSC), também atua na valorização de experiências bem-sucedidas promovidas por escolas de todas as regiões do estado. Um dos exemplos está em Águas Frias, município com cerca de três mil habitantes localizado no Oeste catarinense.
As três escolas da rede municipal não registram casos de evasão escolar nem acionamentos do sistema APOIA. Entre elas, está a Escola do Campo em Tempo Integral Tarumãzinho. Desde 2019, a unidade oferta ensino em tempo integral e desenvolve um projeto pedagógico que alia os conteúdos do ensino regular da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e sete macrocampos, que envolvem atividades práticas e conhecimento teórico. São eles: agricultura, saberes e fazeres, tecnologia, cidadania, esporte, saúde e qualidade de vida, cultura e linguagens corporais.
Atualmente, a Tarumãzinho atende 74 estudantes do primeiro ao quinto ano do ensino fundamental e conta com uma equipe de 16 profissionais, entre professores e parceiros das atividades desenvolvidas. A abrangência do transporte escolar permite que estudantes de diferentes bairros e de comunidades no interior possam frequentar a escola, localizada a seis quilômetros do centro da cidade.
"Temos uma equipe muito engajada em prol da educação das crianças no nosso município. No transporte escolar, hoje nós temos sete linhas envolvidas. A cada nova matrícula, já acionamos os motoristas para verificar qual o melhor trajeto, a melhor forma de atender, se é necessário ampliar a cobertura de cada linha do transporte. Nenhuma família fica desassistida", salientou a Secretaria Municipal de Educação Danglei Boaro.
A estrutura da escola Tarumãzinho dispõe de ginásio, parque infantil, área verde, riacho, pomar, horta e animais cuidados pelos próprios estudantes como parte do processo ativo de aprendizagem. Com ensino integral, as crianças fazem refeições na escola, incluindo café da manhã, almoço e lanches. No período matutino, ocorrem as aulas do currículo regular. Após o almoço, as crianças têm um período para descanso antes da retomada das práticas e dinâmicas de aprendizagem no período vespertino.
A diretora Elizangela da Silva destaca o envolvimento da comunidade local, que se mobilizaram diante da possibilidade de fechamento da escola em 2018. No movimento para manter o funcionamento da escola surgiu a proposta de implementar o ensino integral.
"Se a escola fechasse, toda a comunidade seria impactada. Foi bonito de ver o movimento e o empenho de todos para abraçar a escola. O ensino integral se tornou realidade graças às parcerias que tivemos e ao voto de confiança da própria comunidade", avaliou a Elizangela, que está no comando da direção escolar há quatro anos. Para ela, a participação das famílias contribui para fortalecer o vínculo dos estudantes com a escola e possibilita identificar precocemente eventuais dificuldades enfrentadas pelas crianças.
O desenvolvimento e a implantação do projeto pedagógico de ensino integral contaram com a participação de universidades da região e da Associação dos Municípios do Oeste de Santa Catarina (AMOSC). "Nós reunimos a comunidade para debater o projeto, tanto os objetivos quanto os macrocampos. Portanto, na Tarumãzinho a oferta de educação em tempo integral foi construída coletivamente. É um dos meios para que possamos contribuir com a permanência das crianças nas escolas, para que não tenhamos casos de abandono escolar", esclareceu a assessora em Educação da AMOSC, Locenir Tereza de Moura Selivan.
Por seu índice de evasão zero, ótimos indicadores de aprendizagem e projeto de ensino integral na educação do campo, a escola Tarumãzinho se tornou referência regional e estadual. "A nossa experiência pedagógica, com o currículo, as oficinas e o espaço da escola, é um projeto muito inovador. Já recebemos visitas de representantes de mais de 10 municípios, que vem até a escola para conhecer e levar como inspiração para outras escolas", destaca Vanusa Cimone Rech Citadella, coordenadora pedagógica da Secretaria Municipal de Ensino.
"Todo dia eu escuto de algum aluno o quanto eles amam essa escola e amam estudar aqui. Essas falas são resultado do empenho e do envolvimento de cada profissional para construir uma escola melhor a cada dia", refletiu a diretora Elizangela da Silva. Essa opinião é compartilhada pela conselheira tutelar Renata Mattia, que é mãe de uma menina de nove anos que estuda na Tarumãzinho. "É um espaço bem bacana e seguro, além da grade curricular, tem oficinas. A minha filha adora estudar lá", disse Renata.
Rede de proteção integrada é peça-chave para prevenção da evasão escolar
A atuação em rede é apontada como fundamental para a ausência de casos de abandono escolar na rede municipal de ensino de Águas Frias. As áreas de Educação, Saúde, Assistência Social, Conselho Tutelar e comunidade escolar atuam de forma integrada, mantendo contato contínuo com as famílias para acompanhamento dos estudantes. Com uma reunião periódica mensal, os profissionais da rede de proteção compartilham informações que possibilitam ações rápidas e eficazes diante de qualquer sinal de vulnerabilidade.
"Dentro dessas oportunidades nós conseguimos debater e estudar casos específicos, que demandam uma atenção maior de toda a rede. Claro que cada área contribui com as suas competências e atribuições, mas quando entra a expertise e a compreensão de várias profissões, conseguimos agir de forma eficaz e certeira", relatou a psicóloga da Proteção Social Especial Cheila Aparecida Dias dos Santos Colla.
Também psicóloga, Rafaela Perim Rafaeli, que atua no serviço público de saúde, avalia positivamente a articulação constante como forma de fortalecer o atendimento individual e as ações de prevenção à infrequência escolar. "O trabalho conjunto da rede favorece muito a nossa realidade de não evasão escolar. Quando a escola reporta alguma situação, a rede entra em ação. O Conselho Tutelar visita a família, a Saúde atua e intervém se envolver uma questão médica", frisou.
Ao compartilhar a história de iniciativas como a da Escola do Campo em Tempo Integral Tarumãzinho, o Programa APOIA reforça a importância da construção de ambientes escolares capazes de promover pertencimento, aprendizado e desenvolvimento integral dos estudantes.
A Promotora de Justiça Daniela Böck Bandeira, coordenadora do Centro de Apoio Operacional da Infância, Juventude e Educação (CIJE) do MPSC, sinaliza ainda que o trabalho articulado da rede de proteção social é primordial para o combate e a prevenção da evasão escolar.
Conheça o APOIA
Criado em 2001 pelo MPSC, o programa atua para combater a evasão escolar e mobiliza escolas, Conselhos Tutelares, Promotorias de Justiça e a sociedade catarinense. O APOIA funciona de forma integrada, em rede, e reúne instituições que trabalham de forma integrada para garantir o retorno à escola de crianças e adolescentes entre 4 e 18 anos incompletos que não concluíram a educação básica. Além de viabilizar o retorno, o programa também atua na prevenção de novas situações de evasão escolar e no fortalecimento de políticas públicas que contribuam para a qualidade do ensino.