O Mapa do Feminicídio de Santa Catarina é um retrato inédito e aprofundado da violência letal contra mulheres no estado. A ferramenta reúne dados oficiais e de investigações para mostrar onde, como, quando e em que contextos os feminicídios acontecem, revelando padrões territoriais, dinâmicas recorrentes e fatores de risco. 

O estudo analisa o perfil das vítimas e dos agressores, os vínculos entre eles, a existência de violência prévia, o uso de medidas protetivas e as circunstâncias dos crimes. Também evidencia a interiorização dos casos e as regiões com maior incidência, contribuindo para a compreensão de um problema que é estrutural e persistente. 

Mais do que números, o mapa transforma dados em informação qualificada, orientando a atuação institucional e ajudando a fortalecer políticas públicas de prevenção, proteção e enfrentamento à violência de gênero. 


Não a deixaram viver:
a história de Ana Kémilli

A história de Ana Kémilli Taques Krindges, de 14 anos, assassinada em 2021 em Campo Belo do Sul, evidencia a interiorização da violência feminicida em Santa Catarina. O crime, planejado pelo autor após negativas da vítima e cometido com apoio de terceiros, expõe um cenário alarmante para mulheres e meninas no interior, que concentra um dos maiores índices proporcionais de feminicídio no estado ao longo do período analisado pelo mapa. 

Após 30 anos de violência, Mônica tentou recomeçar 

Alegre aos olhos de quem convivia com ela, Mônica viveu por três décadas sob um ciclo contínuo de violência, marcado por controle, ameaças e medo, dinâmica que reflete o padrão dos feminicídios íntimos identificados pelo Mapa do Feminicídio. A violência se instalou de forma gradual, passando pela espiral que alterna tensão, agressão e falsas tentativas de reparação, agravada pelo uso de álcool pelo agressor. Mônica foi morta após romper a relação. 

Órfãos do feminicídio

Eveline, de 37 anos, foi vítima de feminicídio em Blumenau, assassinada a facadas pelo marido dentro de casa, na frente dos dois filhos – uma menina de quatro anos e um menino de dois. O caso se enquadra no padrão mais recorrente identificado pelo Mapa do Feminicídio: a violência cometida em uma relação íntima e familiar, com o agressor sendo o companheiro da vítima. Com o assassinato da mãe e a prisão do pai – condenado a 20 anos de reclusão –, as crianças tornaram‑se órfãs e integram os 45,6% dos casos de feminicídio cometidos na presença de testemunhas. 

No caminho de casa: o feminicídio de Catarina Kasten 

Catarina Kasten, de 31 anos, foi vítima de feminicídio enquanto seguia sua rotina em Florianópolis, atacada por um homem que não conhecia. Diferentemente da maioria dos casos analisados no Mapa do Feminicídio, Catarina não vivia uma relação abusiva nem tinha qualquer vínculo com o agressor, o que revela que a violência de gênero também ocorre em espaços públicos e fora das relações íntimas. O caso integra o grupo de feminicídios cometidos por desconhecidos e associados à violência sexual, mostrando que o simples fato de ser mulher pode se tornar motivação para o crime. O autor confessou o assassinato e responde por feminicídio, estupro e ocultação de cadáver.