Órfãos do feminicídio

“Uma mãe incrível, uma mãe babona, uma mãe cuidadosa, sabe? Sempre, sempre cuidando dos filhos”. É assim que Ilácia descreve a filha Eveline, assassinada pelo marido na frente dos filhos em Blumenau – uma menina que tinha quatro anos e um menino com dois. Órfãs de mãe e de pai – ele preso e condenado a 20 anos de reclusão –, as crianças passaram a viver com os avós.  

“Eles perderam tudo, né? Vieram para cá só com a roupinha do corpo”, lembra a avó. Ela sabe que não substitui a filha na vida dos netos, mas segue fazendo o bolo de cenoura como Eveline fazia. “Eu não consigo fazer da forma que ela fazia, mas eu quero dar o meu melhor”.  

Os filhos de Eveline fazem parte dos 45,6% dos casos de feminicídio que têm testemunhas – e, por isso, aparecem nas estatísticas oficiais. O Mapa do Feminicídio revela, porém, que 41,4% dos casos ocorrem sem testemunhas. Isso indica lacunas significativas na identificação e no acompanhamento das vítimas indiretas da violência feminicida.  

São crianças e adolescentes que, além da dor de perder a mãe para o feminicídio e o pai para a prisão, muitas vezes vivem à margem de políticas públicas e de serviços de atenção psicossocial, sem acompanhamento contínuo ou medidas adequadas de proteção integral. O Mapa do Feminicídio aponta, portanto, a necessidade de aprimorar os registros oficiais e ampliar a produção de dados sobre os órfãos do feminicídio.  

Os filhos de Eveline são uma exceção nesse cenário. Eles contam com apoio familiar, acompanhamento terapêutico e muito amor. Embora as lembranças daquele dia não se apaguem, a memória de Eveline é preservada com carinho. “Eveline, para mim, era muito mais do que uma irmã. Ela foi mãe, foi amiga, foi a pessoa mais importante da minha vida”, lembra Ingrid, irmã de Eveline, que se mudou para ajudar os pais a cuidarem das crianças.  

Eveline tinha 37 anos quando foi assassinada a facadas. Ela era independente, trabalhava, tinha sua casa e seu carro. Tinha uma risada muito alegre e tinha o sonho de fazer faculdade e de abrir o seu próprio negócio. “Não existia obstáculo para ela. Podia vir qualquer coisa. Ela sempre dava um jeito”, conta Ingrid.   

Naquela segunda-feira, 4 de março de 2024, Eveline teve a vida interrompida. A sua ausência é sentida pelos filhos, familiares e todos que a amavam. A menina que tudo presenciou, hoje com seis anos, sabe escrever apenas três palavras: “mãe”, “mano” e “amor” – palavras que, mesmo depois de tudo, ainda sustentam o que restou e o que segue.  

Trechos do Episódio 3

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